
Nesta segunda feira (12) completa 45 anos o lançamento de um dos álbuns fundamentais da história do rock, "The Velvet Underground & Nico".
Na altura, o disco de estréia da banda novaiorquina Velvet Underground vendeu pouco, mas segundo o produtor Brian Eno, "a maioria que ouviou acabou formando uma banda". Hipérbole à parte, pode-se dizer sem grande polêmica que o LP é a pedra fundamental do rock alternativo, abrindo caminho para os cenários punk, pós-punk e indie que marcariam as décadas seguintes.
Formada em 1964 por Lou Reed (guitarra e vocal) e John Cale (baixo e viola), a banda se consolidaria no ano seguinte já com Sterling Morrison (guitarra e baixo) e Maureen "Mo" Tucker (bateria). Reed queria, desde o início, explorar novas possibilidades no rock and roll além dos temas ingênuos e adolescentes que dominavam o estilo. Anos depois, definiu o conceito como "rock para adultos", o que combina com o fato do nome da banda ter sido inspirado num romance pornográfico. Paralelamente, Cale havia estudado música de vanguarda e trouxe consigo idéias musicais até então inéditas, explorando como nunca antes o caos, o barulho e as harmonias estranhas.
Isso tudo, junto à imagem sinistra e à androginia da baterias "Mo" Tucker chamou a atenção do ícone da Pop Art, Andy Warhol, que apadrinhou a banda, apresentando-a à cantora alemã Nico. Bela, excêntrica e dotada de uma estranha voz grave, coube como uma luva na formação do Velvet. Começa aí o processo de criação que chegaria no álbum de estréia.
Gravado entre abril e novembro de 1966 pelo legendário produtor Tom Wilson, o trabalho trazia o repertório inicial do grupo. Mais do que isso, era o primeiro disco de música pop com canções falando abertamente de vício em drogas pesadas ("I'm Waiting For The Man", "Heroin", "Run Run Run") e sadomasoquismo ("Venus in Furs"). Ainda mais experimental, "European Son" fecha o disco com sete minutos de improvisação e ruídos. Multidimensional, o álbum também contava com canções singelas e líricas como "Sunday Morning", "Femme Fatale" e "I'll Be Your Mirror".
A capa, marcante, foi desenhada por Andy Warhol e se transformou num dos trabalhos mais marcantes do artistas. Simples, era apenas uma banana sobre um fundo branco, mas na edição original a banana podia ser "descascada", revelando uma sugestiva coloração rosada na polpa.
Ao ser lançado, quase um ano após o início das gravações, "The Velvet Underground & Nico" pegou o início da revolução psicodélica que varreria o mundo no verão de 1967. A banda, no entanto, não poderia estar mais distante do "flower power". Vestidos de preto, falando sobre temas urbanos e negativos, foram um dos poucos antídotos aos clichês da geração hippie. Ao mesmo tempo anti-comerciais e fora de sintonia com a contracultura, só conseguiram chegar ao número 171 das paradas da Billboard. Mas as sementes estavam plantadas.
Na Inglaterra, David Bowie ouvia com atenção e elaborava o que viria a fazer na década seguinte. Na Alemanha, os futuros integrantes de bandas como Can e Neu! tinham epifanias. Nos EUA, o adolescente Jonathan Richman largava tudo para seguir a banda, antes de inventar a new wave com seu grupo The Modern Lovers.
Durante a década de 70, mesmo com o sucesso da carreira solo de Lou Reed, a banda continuou obscura, alimentando uma sociedade secreta de fãs. Isto se refletiu diretamente nos covers gravados por diversas bandas punks inglesas, na temática sinistra do Joy Division e de forma ainda mais extrema em bandas da década de 80 como Sonic Youth e Jesus & Mary Chain, que definiram o indie rock de seus países reproduzindo tanto o visual como as microfonias e experimentações sonoras do Velvet Underground.
Aos 45 anos, "The Velvet Underground & Nico" tem o prestígio que merece. Eleito pela revista "Rolling Stone" como o 13º disco mais influente de todos os tempos, é mais conhecido do que nunca e fartamente disponível. Durante todas estas décadas, se existe um que sempre é citado quando uma nova leva de bandas surge para "salvar o rock", é o do Velvet Underground. E assim deve continuar.
Ouça agora na Rádio UOL a versão deluxe do disco "The Velvet Underground & Nico".